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A Paixão pelo Seu Próprio Amor

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Moacyr Castellani
Publicado em: 
Estado de Minas

“E viveram felizes para sempre...” Este sonho tem sido eliminado de suas fantasias? Você acredita que, com o tempo, a paixão acaba?

É verdade, após um início fascinante e fulminante, as relações se desenvolvem rumo a perspectivas menos calorosas. Surge, por detrás do amante, uma pessoa comum. Surgem, por trás das qualidades, os limites inerentes à própria condição humana. Pode ser o início de uma encruzilhada: descobrir e desenvolver o amor que existe entre o casal ou, simplesmente, desistir da relação.
Mas há uma armadilha sob esta perspectiva, sobre o fim da paixão: que uma relação duradoura é ausente de desejos, fantasias e descobertas. Muitos casais perdem o fascínio do convívio a dois por acreditarem e se submeterem à rotina, baseada apenas em sentimentos de amizade, cumplicidade e companheirismo.

É claro que estes sentimentos são nobres e vitais. O problema é que acreditamos que todo aquele antigo deleite passa a ser definitivamente substituído por sentimentos menos apimentados. E, como é o que falta e não o que sobra que incomoda, buscamos fora o que poderia ser encontrado dentro da relação. É quando surge a ameaça do abandono ou mesmo da traição.

Bem, se uma relação não oferece as condições necessárias para se desenvolver, é claro que ela pode e deve ser abandonada. Não adianta insistir em colher de uma árvore que não oferece mais frutos. Infelizmente, algumas relações não dão certo. Elas perdem o sentido. Naturalmente, acabam.
Mas não só as relações ruins e sem sentido estão atualmente se esmorecendo. As boas relações, encontros verdadeiros e gratificantes também estão se esgotando: não por falta de sentido, mas de clareza e perseverança. Infelizmente, ao invés de investir, ser sincero e tentar melhorar, somos inconscientemente condicionados a sabotar relações. Exigimos que a semente torne-se planta madura da noite para o dia. Este é o mecanismo da auto-sabotagem, desejar saborear o fruto sem antes criar as condições para que ele amadureça. Queremos ser felizes sem mesmo desenvolver as possibilidades básicas para a construção de uma vida em comum.

Na verdade, o segredo de uma relação feliz e duradoura é descobrir que a paixão não acaba - ela se transforma. À medida que os parceiros se afinam como casal, superando os próprios limites e desenvolvendo um convívio mais consciente, a paixão ressurge com um apetite ainda mais voraz. Afinal, ela agora é profunda e duradoura; mais presente, autêntica e estimulante. Não depende só de novidades e fantasias para existir. Ela se fundamenta no combustível básico do prazer: intimidade.

Não há nada mais propício à exploração dos desejos que a intimidade baseada em sinceridade, comunicação e confiança mútua. Ela é a fonte de bem-estar que nos permite ser espontâneos, se sentir à vontade para explorar as faces mais secretas do convívio a dois.

É claro que uma nova e misteriosa paixão estimula os nossos mais inquietos desejos. Mas também não há nada mais glorioso que se apaixonar pelo seu próprio amor. Afinal, é simplesmente sublime saborear a mais intocada intimidade de alguém que compartilha de seus mais profundos segredos.