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A Outra Face da Democracia

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Moacyr Castellani
Publicado em: 
Estado de Minas

Fala-se muito em justiça social no Brasil. Mas, mesmo com a conquista de um regime mais aberto, eleição direta e democracia tornaram-se ápices de campanhas populistas. Nosso país ainda continua sofrendo o que podemos chamar de discurso vazio.

Embora possamos livremente escolher nossos representantes, muitos governam sob a demagogia de projetos e promessas ilusórias. Infelizmente, num país onde consciência política é apenas um jargão, tornamo-nos submissos à lei do mais astuto. Corrupção, desvios de recursos, escândalos políticos, excesso de impostos, instituições falidas são as manchetes dos jornais. Enquanto trabalhamos arduamente rumo à esperança de dias melhores, uma pequena minoria enriquece às custas de nossa ingenuidade. Inadvertidamente, assistimos espantados à nossa própria decadência.

Ora, democracia e justiça existem onde há consciência política e social. Dizem que é necessário investir em educação, mas só isto não basta. A noção de educação em nosso país está fundamentalmente ligada a conhecimento e informação. Achamos que um povo consciente seja um povo bem informado, intelectualizado. Esquecemo-nos do essencial- a constituição interior do indivíduo. O desenvolvimento de valores, senso ético e integridade são imprescindíveis para aplicar qualquer conhecimento adquirido. Somente informar não basta, precisamos formar o caráter do indivíduo.

Numa sociedade onde ainda reina a "lei de Gerson", como reivindicar direitos quando não cumprimos nossos deveres como cidadãos? Como exigir justiça social quando muitas vezes somos tentados a fazer "vista grossa" aos direitos alheios? Quando a referência pessoal passa a ser o oportunismo e o desejo de levar vantagem em tudo, trabalhamos uns contra os outros ao invés de crescermos de forma unida. É por isso que "o povo tem o governo que merece".

Ora, o exercício da democracia é algo mais do que liberdade de expressão ou poder escolher nossos representantes legais. É, fundamentalmente, saber discernir o que escolher, expressar idéias e firmar convicções que realmente façam sentido e que contribuam de forma digna e concreta nas questões fundamentais para a nação. Se queremos que seja respeitada a vontade da maioria, é necessário que esta maioria se engaje na construção e no progresso de seu próprio país.

Afinal, se "não é a justiça que faz os justos, são os justos que fazem a justiça", como já dizia Aristóteles, creio também que não é a democracia que faz uma grande nação, mas são valores individuais sólidos e genuínos que fazem a democracia e constróem uma sociedade próspera.